A história completa da filha que matou a mãe com remédios

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Jovem é condenada por matar mãe com ajuda do seu ex-namorado. Por ter confessado, ela acabou recebendo pena menor do que a do ex, que negou ter cometido o crime. Uma prima sabia de tudo. 

Texto: Andrielli Zambonin/Jornal Extra

Valéria Ribeiro da Silva, 24 anos, acusada de matar a mãe com remédios, foi a júri popular nesta quinta-feira (20) no Fórum da Comarca de Caçador. O ex-namorado dela e uma prima, que teriam ajudado no crime, também foram julgados. Os três estavam presos desde junho de 2016. A morte ocorreu em março do mesmo ano.

Valéria, o ex-namorado Leandro Negretti, de 25 anos, e a prima Priscila de Fátima Ribeiro, de 24, foram indiciados pelo homicídio de Elenir Ribeiro, de 45 anos. A filha por homicídio triplamente qualificado: motivo torpe, impossibilidade de defesa da vítima e meio insidioso; e Leandro e Priscila por homicídio com as duas primeiras qualificadoras.

Valéria foi condenada há 23 anos e quatro meses de prisão. O ex- namorado Leandro foi condenado a 24 anos de reclusão. A ré Priscila de Fátima Ribeiro teve a acusação desclassificada para omissão de socorro.

Valéria (E), Leandro e Priscila

Entenda o crime

No celular de Valéria, a polícia encontrou o áudio de uma conversa entre ela e o ex-namorado, em que os dois comentam sobre o crime. A perícia encontrou uma gravação já apagada pela jovem.

“Era uma conversa dela com o ex-namorado a respeito do crime, usada para chantagear o rapaz e obrigá-lo a reatar o romance”, informou o delegado responsável pelo inquérito na época dos fatos, Fabiano Locatelli.

Segundo Locatelli, a mãe sofria de esquizofrenia e usava diversos medicamentos regularmente.

“Desde janeiro, quando Elenir saiu de uma clínica, teve os cuidados transferidos para a filha, Valéria que passou a se dizer sobrecarregada”, contou Locatelli na época.

Leandro, o ex-namorado, indicou um emagrecedor vendido sem retenção de receita médica, que não seria identificado em uma perícia. Conforme a investigação, foram dados mais de dez comprimidos à vítima.

Valéria é quem teria dado os medicamentos para a mãe. Ela e a prima assistiram à agonia da mulher por três horas, conforme o delegado. “Só depois de uma hora, quando tiveram certeza da morte dela, simularam um pedido de socorro aos bombeiros”, disse Locatelli.

Na época, um atestado classificou a morte como natural.

Caso de serial killer levantou suspeita

A polícia só levantou a suspeita sobre a morte de Elenir após o desaparecimento de um irmão da vítima, na época da prisão havia um suposto serial killer na cidade – preso suspeito de matar e esquartejar ao menos três pessoas.

Em depoimento sobre o desaparecimento do homem, um dos parentes da mulher de 45 anos declarou à polícia suspeitar que ela não tivesse morrido por causas naturais, mas que tivesse sido assassinada pela própria filha. Até então, familiares e conhecidos não desconfiavam do ocorrido.

Depoimentos

Marcos Heming – Médico psiquiátrico que atendia Elenir

O Dr. Marcos tratou Elenir por mais de dez anos. A mulher que sofria de um tipo grave de esquizofrenia, costumava ver coisas, ter alucinações, atitude agressiva e perda de noção, segundo o médico. “Aparentemente ela teria morrido de forma natural, vendo que a doença dela tinha um quadro com tendência a piorar e ela tinha um grande descuido com a sua pessoa”, relata.

O médico relata ainda que Valéria não tinha condições de cuidar de Elenir. “Precisa ser da área, ter uma preparação para cuidar de pessoas com essa doença, a psiquiatria em si é algo difícil de lidar. Você não pode ser médico de um familiar”, relata.

Ele conta ainda que também já atendeu Valéria que tinha um transtorno psicológico genético fraco, porém ainda tinha.

Jacir Ribeiro – Irmão da vítima

O irmão de Elenir afirma que morava com a Valéria e a vítima, porém não ajudava a cuidar de Elenir em nenhum momento. “Eu não cuidava, pois eu trabalhava”.

Segundo ele, chegou do trabalho e foi dormir, ao acordar, os fatos já tinham acontecido e Elenir estava morta. “A Priscila me chamou, quando vi a cena fiquei apavorado, mandei a Valéria chamar os bombeiros e quando chegaram ao local confirmaram o óbito”.

O irmão conta ainda que os transtornos psicóticos pioraram após o primeiro parto de Elenir. “Não dava para deixa-la solta, pois ela quebrava tudo. Não ouvi nada no dia dos fatos. Valéria e meu pai sempre cuidaram bem dela apesar de ser difícil de lidar, não era qualquer um que conseguia”.

Agenor Ribeiro – Pai da vítima e avô da Valéria e Priscila

Agenor, o pai de Elenir foi quem sempre cuidou da vítima. “Ela era uma criança quieta, calma, já tinha a doença, mas naquela época não sabíamos. Ela era uma pessoa difícil de lidar, após o primeiro parto, a Elenir piorou muito, até em mim ela batia”, declara.

O pai ainda conta que quando Elenir estava grávida de Valéria saia durante a noite. Depois que a menina nasceu Elenir não cuidava dela. “Eu sempre achei que Valéria também precisasse de tratamento. E todos tinham medo da Elenir”.

Valéria – Filha de Elenir e acusada do crime

Em depoimento, Valéria confessou que deu seis comprimidos de franol para Elenir. Ela conta que cuidava da mãe a três meses, que era difícil lidar pois ela era agressiva, não tinha controle. Valéria usava o franol para emagrecer, no dia dos fatos estava em desespero, não sabia o que fazer pois não aguentava mais a situação com a mãe. “O Leandro me orientou a usar franol, para emagrecer, mas ele não sabia que eu queria dar para minha mãe. Naquele dia ela tinha tirado a fralda e espalhado as fezes pela parede, eu limpei tudo, mas não aguentava mais. Foi na hora do desespero, não tinha ninguém para me ajudar”.

Valéria afirma que recebeu atestado médico de bipolaridade. Ela tentou suicídio duas vezes e disse que a sua referencia de pai e mãe é o avô que sempre cuidou dela. Valéria declara ainda que Priscila e Leandro não tiveram nenhum envolvimento.

“Eu não aguentava mais, não tinha vida. Sinto muito pelo sofrimento da minha família, mas Elenir está em um lugar melhor agora. Aquilo que ela vivia não era vida”.

Priscila de Fátima Ribeiro – Sobrinha da vítima e prima da Valéria

Em depoimento Priscila afirma que mentiu no depoimento da delegacia. “Eu fiquei com medo de ir presa e menti”.

Segundo ela, não sabia de nada que Valéria estaria planejando fazer.

Priscila cuidava de Elenir a pedido do avô, por espontânea vontade, apesar de afirmar ser uma situação difícil, pois a tia era agressiva demais.

Leandro Mateus Alves Negretti – ex-namorado de Valéria

Segundo o depoimento de Leandro Mateus Alves Negretti, Valéria teria dito que queria morrer, pois não aguentava mais cuidar da mãe.

Mateus, como era conhecido no seu meio, iniciou um relacionamento que durou cinco anos com Valéria. “Quando ela deu os remédios para a Elenir já estávamos separados há dois anos. Nós dois já tínhamos outros relacionamentos”, contou.

Ele também disse saber dos problemas psicológicos da mãe de Valéria. “Eu sabia, mas isso não atrapalhava nosso relacionamento, pois eu trabalhava com pessoas com problemas parecidos e com isso eu podia ajudar. Eu dava palestras para crianças e idosos do CRAS”, afirmou Mateus.

Segundo ele, no dia do crime Valéria foi até a academia em que ele trabalhava deixar suplementos. “Não deixou os medicamentos, só suplementos”, afirmou.

Mateus ainda afirmou ser inocente. “Eu digo que sou inocente. Passei o termogênico para uma aluna comum como qualquer outra. Não tenho como controlar a vida e uso dos alunos”, finalizou.

O que a defesa diz

A advogada de defesa de Priscila e Valéria, Marcia Helena da Silva declarou em plenário que não estava afirmando a inocência dos crimes de Valéria. “Primeiro que a Valéria nunca teve uma mãe, mãe não é quem gera então dizer que ela matou a própria mãe é algo exagerado”.

Outro ponto que a advogada colocou em pauta foi a crueldade dos fatos. “Se o tio chegou às 16h em casa e estava tudo bem com Elenir, as 18h foi atestada a morte dela, matematicamente não existe uma lógica para ela ter ficado agonizando durante tantas horas”.

Marcia Helena lembra ainda que acompanhou a infância e os transtornos que Valéria passou. Segundo ela, o próprio pai negou a paternidade da menina em plenário na frente dela. “Vi ela chorando porque o pai não queria assumir dizendo que o DNA era falso e ele não tinha se relacionado com uma louca. É difícil ver uma menina que quando criança dizia que queria ser advogada agora presa”.

O advogado Sandro de Oliveira, que tentou a absolvição do réu Leandro, afirma que a tanatopraxia é algo padrão em todos os corpos, portanto não foi algo planejado ou escolhido. Além disso, o advogado também sustentou a tese de que não existem provas de que Elenir morreu por franol. “Poderiam ter tido provas, mas mesmo assim não trouxeram provas, isso prejudicou a vida de alguém”, afirma.

A sentença

Valéria foi condenada a 23 anos e quatro meses. O ex- namorado Leandro foi condenado a uma pena ainda maior que a de Valéria, serão 24 anos de reclusão. A pena maior se dá pelo fato de Valéria ter confessado o crime, já Leandro, apenas por mentir subiu dois anos na pena. O advogado de Leandro afirma que a pena foi injusta e irá recorrer ao processo.

A ré Priscila de Fátima Ribeiro teve a acusação desclassificada para omissão de socorro. Os jurados entenderam que o crime que ela cometeu não foi aquele contido na denúncia, e assim outro delito chamado omissão de socorro, o qual oferece o benefício da suspensão condicional do processo. Então, agora, o processo vai ao Ministério Público e será feito uma nova audiência. Priscila então segue em liberdade.

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