Ensino pode modificar comportamento do autista

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De acordo com a professora Alzira Cândido Lopes, especialista em educação especial, é possível modificar o comportamento do autista através do ensino. A afirmação ocorreu durante o seminário “Desafios e potencialidades dos autistas”, realizado nesta segunda-feira (23) no Clube Navemar, em Navegantes.

“O comportamento do autista pode ser modificado através do ensino, não precisa nascer e morrer do mesmo jeito, pode aprender a ser diferente, mas para ensinar é preciso conhecer o autista, estudar, se especializar e respeitar cada um do jeito que é”, argumentou Alzira Lopes.

A professora exemplificou. “Sabe aquela criança que só come danoninho? Ela está dizendo para a mãe ‘só aceito comida com textura pastosa, cheirando a morango e gelado’. Então tudo o que tiver cor rosa, for gelado, cremoso e com sabor de morango a criança vai aceitar comer”, informou a especialista, que enfatizou que se a tendência for detectada no período de estimulação, “é possível modificar o comportamento”.

Além disso, Alzira Lopes defendeu o atendimento individual e personalizado dos autistas. “Cada caso é um caso. Vejam vocês a história de um menino de três anos que não dormia sem sapato e não suportava água, imagina dar um banho! Com dois anos de trabalho ele brincava descalço, dormia descalço, tomava banho, brincava com bola molhada e corríamos no campo orvalhado descalços. Ele continua sendo autista, mas eliminou essas esquisitices, claro tem outras tantas, mas deixa ele viver”, destacou Alzira.

Segundo a educadora, o ensino dos autistas também depende do envolvimento da família. “A família tem de participar do processo, os professores precisam ouvir o que as famílias têm a dizer para verificar do que o autista gosta, o que o incomoda, o que o satisfaz, isso vai fazer com que a gente atenda melhor as nossas crianças”, garantiu a pedagoga.

Troca de professor
Alzira Lopes ainda destacou a descontinuidade do trabalho do professor quando há mudança de turma e de série. “Essa descontinuidade atrapalha e muito a vida da criança, principalmente quando ela começa a se desenvolver. Mas este sujeito vai ter que passar por isso, é da vida, cabe a nós preparar essa transição, que não pode ser fria. Aí entra de novo a família, ‘olha, você não conhece meu filho, suas rotinas, então vamos sentar nós três, o professor antigo e novo, para conhecer melhor a criança”.

Tratamento do autismo
Alzira Lopes ressaltou que o tratamento depende do grau do autismo, do início da intervenção e da metodologia aplicada. “Não sou contra o uso do medicamento, mas acho que o remédio deve entrar quando já esgotamos os recursos para mudar o comportamento”, avaliou a professora.

Asperger (autismo leve) x autismo de alto funcionamento
Alzira relacionou características que determinam se o autismo é leve (Asperger) ou de alto funcionamento.
O Asperger tem coeficiente intelectual acima do normal; o diagnóstico geralmente ocorre depois dos três anos; todos são verbais, com gramática e vocabulário acima da média; desejam ter amigos e se sentem frustrados pelas suas dificuldades sociais; desenvolvimento físico normal; interesses obsessivos de alto nível; quase não apresentam estereotipias; pensamentos obsessivos; memória superior à da população; aprendem a ler sozinhos; e frequentam escolas regulares.

Já no autismo de auto funcionamento o coeficiente intelectual é geralmente abaixo do normal; atraso no aparecimento da linguagem, 75% não falam e só 25% são verbais; gramática e vocabulário limitados; desinteresse com as relações sociais; nenhum interesse obsessivo de alto nível; os pais detectam os sinais por volta dos 18 meses; estereotipias frequentes em mais de 90% dos casos; podem ser alfabetizados; e podem ter memória superior à média da população.

Fique atento se …
Entre dois e três meses a criança não faz contato com os olhos e tem choro intenso; seis meses e não sorri e não dá gargalhadas; oito meses e não acompanha você com o olhar quando se afasta dela; nove meses e não balbucia palavras e não estende os braços quando a mãe entra no quarto.

Um ano e não procura pela mãe e não dá tchauzinho; um ano e meio e ainda não pronunciou uma palavra inteligível; dois anos e ainda não elaborou nenhuma frase com começo, meio e fim.

 

O caso Felipe

“Felipe sofria muito bullying, mas o autista não está nem aí para os outros, ele não queria ter turminha, não queria fazer parte do grupo, queria ser ele. Aí cansaram de rir das esquisitices dele”.

“Tudo o que ele queria era passar no vestibular para Engenharia. Qual era a barreira? Fazer a redação, tudo que é abstrato, é difícil. Para o autista é pão-pão, queijo-queijo, então ele treinou frases e passou na redação”.

“Mas criança é como videogame, a próxima fase é sempre mais difícil! Não deu outra, seis meses depois a UFSC pediu ajuda. ‘Não temos paciência para lidar com as esquisitices do Felipe, chega se sacudindo, se mordendo’. Fui na sala conversar com alunos e perguntei ‘qual de vocês pretende ter filhos?’ Uns seis levantaram. ‘Quem levantou venha aqui na frente dizer que tem certeza de que seus filhos vão ser normais’. Ninguém veio para a frente”.

“Aí começaram a falar. ‘Ah professora, brigar por carteira não combina com um rapaz de 18 anos’. Ora, quando o Felipe entra, ele quer a carteira vazia, é o espaço dele, onde se sente seguro, porém os colegas chegavam antes para sentar no lugar dele, deixando-o desestruturado e ansioso, daí o professor não conseguia dar aula. Que bom que não me chamaram mais, muitas vezes o problema está colocado por conta da desinformação”.

TEXTO: Vítor Santos

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