A volta da polarização no Brasil

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Por Rudá Ricci

Tenho visto muita sugestão exagerada sem grande fundamento e em tom definitivo a respeito do futuro político do nosso país. Se política fosse tão definitivo como as previsões que estou citando fossem um fato, marqueteiro político morreria de fome. Aliás, daria para escrever um livro com máximas políticas que nos ensinam que política é um campo movediço que desautoriza qualquer previsão com mais de uma semana de antecedência.

A primeira constatação que gostaria de fazer é sobre a desmontagem da direita brasileira. O que os apressados analistas com vocação à Nostradamus não levam em consideração é que citam inúmeras lideranças de esquerda, mas não citam o mesmo número de lideranças à direita. No deserta da direita brasileira só aparece o beduíno Jair Bolsonaro.

O PSDB montou uma armadilha estratégica para si mesmo. Na medida em que o lulismo foi caminhando para o social-liberalismo, reduziu drasticamente o apelo eleitoral dos tucanos. Lula invadiu, digamos assim, o terreno programático e discurso do PSDB.

A reação começou com José Serra, que iniciou a jornada tucana de aproximação das agendas conservadoras, não apenas no campo da política econômica, mas, também, no campo comportamental. O ataque ao aborto foi um bumerangue que atingiu seu casamento e o próprio PSDB. Mas, a saga direitizadora se completaria com Aécio. Aécio Neves foi o presidente nacional do PSDB mais afoito de toda história do partido. Nas memórias publicadas por FHC é perceptível como o político mineiro parecia ansioso para chegar ao topo da República. Perdeu para Dilma Rousseff em 2014 e se jogou numa aventura.

Aécio decidiu se aproximar do MBL, movimento que o estudo de Kátia Gerab Baggio revela que recebeu recursos dos EUA (via Atlas Network) para se lançar na arena política (ver Cadernos Temático do NESP/PUC Minas, n. 7).

O resultado: Aécio despencou no cenário político e sua temida irmã foi presa. Seu legado foi, na prática, a ascensão de Jair Bolsonaro. Ao insuflar o ódio no Brasil contra o PT e qualquer organização de esquerda, abriu a comporta para que um personagem extremado e antissistêmico se insurgisse. Com Bolsonaro, o PSDB foi carimbado como partido tradicional composto por lideranças viciadas.

A partir daí, as forças de direita do país se desorganizaram. Vou encurtar a história e registrar que Sérgio Moro tentou surfar na onda da direitização do país, abandonou o judiciário, se jogou no governo Bolsonaro e acabou melancolicamente, sem visibilidade ou apoio. O futuro de Moro era previsível. Eu mesmo, assim que ele deixou o governo Bolsonaro, sugeri esta hipótese como plausível.

Mas, a tragédia do PSDB continuou. Neste momento, Geraldo Alckmin, uma liderança com discurso pouco agressivo, foi indiciado. Serra é outro alvo desta ofensiva investigativa e acusatória.

Sem Moro e importantes lideranças tucanas, restou Rodrigo Maia no espectro de direita do Brasil. Ocorre que o próprio presidente da Câmara de Deputados, num lapso de extrema franqueza, já admitiu que gente com seu perfil não tem voto de massa. Com efeito, não é carismático.

Portanto, resta neste campo de direita o extremista Jair Bolsonaro. Que, aliás, possui a pior avaliação dentre todos presidentes eleitos depois do regime militar em seus primeiros 18 meses de gestão. Vive o repique do alívio causado pelos 600 reais emergenciais. Um fôlego que nem na melhor hipótese garante um futuro promissor. Terá que provar que é mais que um surfista de sorte.

Aqui, temos um detalhe recente que não é desprezível: a conversão da Rede Globo à absolvição de Lula. A Rede Globo perdeu capacidade de formar opinião majoritária no Brasil desde 2006. Contudo, o giro da empresa indica reposicionamento de parte do empresariado tupiniquim.

Temos, então, um cenário que tende, novamente, à polarização de 2018. Não necessariamente por méritos dos dois lados, mas pelos erros e degelo da direita brasileira. Na ânsia de procurar demonizar a esquerda, se perdeu no horizonte. Uma lição que deveríamos registrar.

Rudá Guedes Ricci é Sociólogo, mestre em ciências políticas, doutor em ciências sociais e corinthiano.

 

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