O estranho caso do governo que caiu sem um ai

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O Estado de Santa Catarina sempre se caracterizou por ser um espaço onde a oligarquia ainda domina, sem qualquer chance para a esquerda e tanto que os partidos desse campo nunca conseguiram chegar perto de uma vitória eleitoral. O máximo que se conseguiu foi garantir a presença do PMDB que, é claro, passa bem longe das pautas de esquerda. Na primeira vez, com Pedro Ivo, ainda tinha rasgos do velho MDB, depois, com Paulo Afonso e Luiz Henrique perdeu todo o resquício de oposição, entregando-se ao credo neoliberal se qualquer pejo. Luiz Henrique mesmo foi nefasto.
 
Por isso quando vieram as eleições para governador em 2018 já se tinha como pão comido que a velha política seguiria seu curso. Mas, eis que surge o fenômeno Bolsonaro e um desconhecido, saído das fileiras da Polícia Militar (bombeiros), por carregar a sigla (PSL) do então candidato à presidente, simplesmente abocanhou quase 30% dos votos catarinenses no primeiro turno. A disputa então foi entre ele, Carlos Moisés, e Gelson Merise, representante da direita tradicional (PSD). Uma eleição deveras intragável. O resultado no segundo turno foi a vitória acachapante do desconhecido Moisés com 70% dos votos válidos. Santa Catarina se juntava às hostes bolsonaristas com furor.
 
Veio a posse e o governador eleito foi tomando pé da situação. Deixava para trás uma elite governante perplexa, mas não vencida. Durante o primeiro ano governou sem arroubos, mas também parecia estar se descolando das propostas grotescas advindas do bolsonarismo. No final de 2019 ele simplesmente rompe com Bolsonaro e imediatamente passa a ser tratado como inimigo pelos bolsonaristas raiz que o haviam colocado na cadeira de governador. Fazia uma aposta. Tinha maioria no parlamento e acreditava que poderia governar em paz.
 
Veio a pandemia e ele imediatamente se colocou à frente do processo, dialogando diariamente com a população e tomando medidas opostas as que eram orientadas pelo presidente Bolsonaro. Mais uma onda de acusações de traição até que em junho a vice-governadora, ainda aliada de Bolsonaro, rompe com o colega de governo. Aí começa a queda. Disputas na Assembleia por conta da taxação dos agrotóxicos e depois o escândalo dos respiradores comprados à vista e sem condições de uso no combate à pandemia foram palmilhando o caminho da derrota. Sem os bolsonaristas o governador enfraquecia e a velha direita arreganhava os dentes.
 
A ponta do estopim para derrubar Moisés veio de um ato administrativo prosaico: o aumento salarial aos procuradores do estado, sem passar pela aprovação dos deputados. Com essa carta na manga começou o ataque e a busca pela saída do governador do cargo. A intenção era responsabilizar Moisés e sua vice, Daniela, tirando os dois da parada. Com isso assumiria o governo o presidente da Assembleia, deputado Júlio Garcia, das fileiras do PSD, tradicional partido do poder catarinense.
 
Tudo parecia caminhar para esse desfecho. Votações realizadas, o governador foi levado ao tribunal para que seu impedimento fosse garantido. Então, no meio do caminho, um deputado do PSL decidiu dar seu voto contrário à implicação da vice. Com isso, o castelo de cartas da velha direita ruiu.
 
Com o processo de impedimento aprovado, o governador Carlos Moisés foi afastado do cargo, e a vice, Daniela Reinehr, que havia se retirado do governo, retorna como governadora. Assim, o bolsonarismo raiz volta a comandar Santa Catarina. Daniela é advogada, ex-policial militar e produtora rural. Totalmente desconhecida dos catarinenses tem na sua biografia o que chama de “militância” pela deposição de Dilma Roussef. Filiou-se ao partido de Bolsonaro pouco antes das eleições.
 
O estranho em todo esse processo é que ele se deu em completa solidão. Apesar de ter levado 70% dos votos dos catarinenses, o governador Moisés não conseguiu mobilizar praticamente ninguém em sua defesa. Tirando a postura sempre puxa-saquista da rede de televisão NSC – a maior do estado – nada mais sobrou ao governador. Não teve passeata, não teve protesto, nada. As votações aconteceram sem qualquer rugosidade, o que mostra o completo descolamento da figura do governador com a população. A própria oposição mais à esquerda, acreditando que iria se livrar de dois coelhos – governador e vice – com uma cajadada só, se deu mal. Afastado do bolsonarismo o governador Moisés certamente seria um mal menor diante do que se apresenta.
 
Essa virada nos planos da oligarquia pode agora fazer com que as coisas mudem no processo. Conforme a governadora em exercício vá mostrando sua plataforma e suas prioridades, o julgamento final do governador afastado pode se alterar. O tabuleiro do xadrez catarinense deu xeque, mas ainda não desfechou o mate. Nos próximos 180 dias muita coisa pode acontecer.
 
Enquanto isso o Estado segue vivenciando alta na contaminação do coronavírus, sem direção no governo e sem qualquer paixão popular diante da briga nos altos escalões, tanto de um lado quanto de outro. A fria ação da política sem alma. A pandemia comendo e a indiferença comandando. Parece que nada está acontecendo. É um tempo de completo vazio já quem nem mesmo no uatizapi ou nas redes sociais o assunto tem importância.
 
Mas, pode ser que tudo isso mude conforme a nova governadora for governando. Ou não, como diria o poeta baiano.
 
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